Amanhã é primeiro de fevereiro...
E q saudade é essa que eu sinto no peito?
Uma saudade do que ainda não vivi, do perfume que ainda não senti,
do filho que ainda não tive, do amigo que ainda não fiz, do emprego que ainda não consegui.
Uma saudade do futuro...
uma saudade da serenidade que ainda não tenho,
da sabedoria que ainda não alcancei,
da paz que ainda não encontrei.
Hoje me sinto diferente pois choro por tentar parar com as saudades que ainda sinto do passado.
Saudades que apertam o peito e dão aquele nó na garganta...
Coisas que ainda guardo em mim mas que preciso urgentemente dizer adeus e vê-las indo embora,
uma a uma, no córrego da vida.
Preciso abrir espaço,
preciso de leveza,
preciso de mudanças,
preciso mudar de saudade.
Saudar o presente, sem ter tanta saudade do futuro também,
valorizar o que tenho agora, as conquistas e dores que carrego em mim
e que me fazem quem sou neste instante efêmero.
Pensando bem, não dá pra deixar ir embora no córrego da vida as coisas, lugares e pessoas que amei. Algumas eu deixxo partir, outras eu guardo comigo, singelos sorrisos, doces frases, trocas profundas, paisagens lindas...
Acho que tô com mais saudade do passado agora! O passado não passou, ele está em mim, ele pulsa em mim, que eu traga dele apenas a leveza do que teve o seu tempo de ser vivido, que eu aprenda a lidar com o fim, com a mudança, e que eu possa acolher as saudades de ontem, de hoje, e de sempre.
"dessa saudade que eu sinto
de tudo que eu ainda não vi"
" Não são as perdas, nem as quedas que podem fazer fracassar nossa vida, senão a falta de coragem para levantar-nos e seguir adiante. "
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
sábado, 5 de janeiro de 2013
A mudança do início
Para começar o ano, pego emprestado palavras de duas mulheres apaixonantes: Viviane Mosé e Martha Medeiros. Já que a verdade é não-toda, que a arte nos permita brincar com ela.
LÚCIFER E OS LÚCIDOS
(Martha Medeiros)
"Lúcido deve ser parente de Lúcifer
A faculdade de ver deve ser coisa do demônio
Lucidez custa os olhos da cara"
Estou embriagada pelos novos poemas de Viviane Mosé. Esta é só uma palhinha de Pensamento Chão, um livro essencial nesses tempos em que já sabemos que não convém circular de Rolex por aí, já sabemos que certos políticos nunca ouviram falar em honra, já sabemos que o verão vai ser sufocante e só nos resta olhar um pouco para dentro de nós, único lugar onde ainda encontramos alguma novidade.
Essa visão inusitada que Viviane nos oferece sobre lucidez, por exemplo, é um convite para a reflexão. Em tempos insanos, de tanta gente maluca por vaidade, maluca por juventude, maluca por dinheiro, maluca por poder, os lúcidos destacam-se pela raridade. São aqueles que não inventam personagens de si mesmos, não se trapaceiam, não criam fantasias, ao contrário: se comprometem com a verdade. E se envolver assim com a transparência dos fatos requer uma integridade diabólica. Para olhar o bicho nos olhos é preciso ser bicho também. Enfrentar a verdade é quase um ato de selvageria.
Mas que verdade é essa, afinal? É aí que o demônio apresenta sua conta, pois o lúcido tem que se confrontar com uma verdade desestabilizadora: a de que não existe verdade absoluta. Nossos pensamentos não estacionam, nossos desejos variam, o certo e o errado flertam um com o outro, não há permanência, tudo é ilusório, e buscar um porto seguro é antecipar o fim: a única segurança está na morte, será ela nosso único endereço definitivo. Durante o percurso da vida, tudo é movimento, surpresa e sorte.
O lúcido faz parte do time - cada vez mais desfalcado - dos que se desesperam como todo mundo, porém de um modo mais íntimo e refinado. O lúcido organiza sua loucura, acondiciona o que está solto no ar, interliga várias idéias independentes para que, agarradas umas nas outras, não se dispersem, estejam ao alcance da mente. Quanto mais o lúcido pensa, mais percebe que lucidez plena não existe, o que existe são suposições, algumas até coerentes, e que nos mantêm no eixo. Lúcido é aquele que sabe que lucidez é uma falácia, e não pira com isso. Recebe a conta das mãos do demônio, calcula os ganhos e os prejuízos, e paga. Custa sim, Viviane, os olhos da cara, pensar, pensar, pensar e repensar, pensar e compensar, pensar, pensar, pensar e morrer do mesmo jeito. Por isso achei tão interessante seu poema. Você matou a charada: Lúcifer é uma espécie de padroeiro dos lúcidos - e lúcido é só um outro nome para louco. O louco que tem a cabeça no lugar demais.
----
Versos de Viviane Mosé
"Pessoas pedem o que não tem noção do que seja"
"Cada um só sabe mesmo as coisas que suporta saber
Não sabe outras"
"Dizem que a vida e a palavra andam transando
(parece que é uma questão de língua)"
"Acho que o ofício de ser gente me excessiva.
Pessoas são pessoas o tempo todo demais.
Ser gente me excessiva.
Gente me excessiva.
E me falta"
"Afirmar a vida é afirmar o corpo.
Afirmar o tempo no corpo.
O tempo do corpo. O chão.
Afirmar a vida é afirmar a morte."
Dos livros:
Medeiros, Martha. Doidas e santas. Porto Alegre, RS, 2012.
Mosé, Viviane. Pensamento chão. Rio de Janeiro, Record, 2007.
LÚCIFER E OS LÚCIDOS
(Martha Medeiros)
"Lúcido deve ser parente de Lúcifer
A faculdade de ver deve ser coisa do demônio
Lucidez custa os olhos da cara"
Estou embriagada pelos novos poemas de Viviane Mosé. Esta é só uma palhinha de Pensamento Chão, um livro essencial nesses tempos em que já sabemos que não convém circular de Rolex por aí, já sabemos que certos políticos nunca ouviram falar em honra, já sabemos que o verão vai ser sufocante e só nos resta olhar um pouco para dentro de nós, único lugar onde ainda encontramos alguma novidade.
Essa visão inusitada que Viviane nos oferece sobre lucidez, por exemplo, é um convite para a reflexão. Em tempos insanos, de tanta gente maluca por vaidade, maluca por juventude, maluca por dinheiro, maluca por poder, os lúcidos destacam-se pela raridade. São aqueles que não inventam personagens de si mesmos, não se trapaceiam, não criam fantasias, ao contrário: se comprometem com a verdade. E se envolver assim com a transparência dos fatos requer uma integridade diabólica. Para olhar o bicho nos olhos é preciso ser bicho também. Enfrentar a verdade é quase um ato de selvageria.
Mas que verdade é essa, afinal? É aí que o demônio apresenta sua conta, pois o lúcido tem que se confrontar com uma verdade desestabilizadora: a de que não existe verdade absoluta. Nossos pensamentos não estacionam, nossos desejos variam, o certo e o errado flertam um com o outro, não há permanência, tudo é ilusório, e buscar um porto seguro é antecipar o fim: a única segurança está na morte, será ela nosso único endereço definitivo. Durante o percurso da vida, tudo é movimento, surpresa e sorte.
O lúcido faz parte do time - cada vez mais desfalcado - dos que se desesperam como todo mundo, porém de um modo mais íntimo e refinado. O lúcido organiza sua loucura, acondiciona o que está solto no ar, interliga várias idéias independentes para que, agarradas umas nas outras, não se dispersem, estejam ao alcance da mente. Quanto mais o lúcido pensa, mais percebe que lucidez plena não existe, o que existe são suposições, algumas até coerentes, e que nos mantêm no eixo. Lúcido é aquele que sabe que lucidez é uma falácia, e não pira com isso. Recebe a conta das mãos do demônio, calcula os ganhos e os prejuízos, e paga. Custa sim, Viviane, os olhos da cara, pensar, pensar, pensar e repensar, pensar e compensar, pensar, pensar, pensar e morrer do mesmo jeito. Por isso achei tão interessante seu poema. Você matou a charada: Lúcifer é uma espécie de padroeiro dos lúcidos - e lúcido é só um outro nome para louco. O louco que tem a cabeça no lugar demais.
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Versos de Viviane Mosé
"Pessoas pedem o que não tem noção do que seja"
"Cada um só sabe mesmo as coisas que suporta saber
Não sabe outras"
"Dizem que a vida e a palavra andam transando
(parece que é uma questão de língua)"
"Acho que o ofício de ser gente me excessiva.
Pessoas são pessoas o tempo todo demais.
Ser gente me excessiva.
Gente me excessiva.
E me falta"
"Afirmar a vida é afirmar o corpo.
Afirmar o tempo no corpo.
O tempo do corpo. O chão.
Afirmar a vida é afirmar a morte."
Dos livros:
Medeiros, Martha. Doidas e santas. Porto Alegre, RS, 2012.
Mosé, Viviane. Pensamento chão. Rio de Janeiro, Record, 2007.
domingo, 16 de dezembro de 2012
A mudança do fim
Daqui a cinco dias, será 21 de dezembro de 2012. Uma data que tem sido muito citada nos últimos tempos como possível data do fim do mundo, pelo fato do calendário maia terminar nesse dia.
Mas esse temor e essa especulação do fim do mundo parece que há muito tempo tem estado presente no imaginário da humanidade. Por que será essa preocupação toda com um fim coletivo da humanidade?
Há um tempo atrás ouvi de dois professores de filosofia: "essa histeria pelo fim do mundo tem relação com um grande temor do ser humano - morrer sozinho". Será que esse tema do fim do mundo atrai tantas multidões porque seria uma forma diferente de fim - um fim coletivo e não individual?
O absurdo do fim. É, um belo dia, a gente descobre que nós também teremos um fim, assim como terão aqueles que amamos. Corremos todos o risco de desaparecer, de cair no esquecimento, de voltar ao pó do qual viemos.
E talvez esse seja a fonte de angústia maior: o fim solitário. Cada um morre sozinho, de forma peculiar. Mas a morte vem para todos: branco, negro, amarelo, rico, pobre, doente, saudável, famoso, anônimo. Por mais que ela venha de forma particular, todos um dia a experimentarão, ou deixarão de experimentar a vida. De repente, o último suspiro. O fim.
Pesquisadores estudiosos do povo antigo maia afirmam que eles não falavam em fim do mundo, mas acreditavam em ciclos, em declínios e recomeços. Para o povo maia, apenas o calendário terminava em 21 de dezembro deste ano, mas outro viria, numa nova contagem cronológica.
Afinal, o fim pode dar abertura pro começo. O fim de um ciclo. Aceitar a finitude pode nos dar coragem para nos lançar mais na vida, para buscar o sentido para nossa existência. Como no excelente filme: "O conto chinês", há formas diferentes de lidar com o fim: paralisar na dor ou sair em busca de sentido.
O filme "Melancolia" mostra "o tombo antes da queda"; diante da possibilidade do fim, a queda numa vida sem sentido, imersa na depressão. Já "O conto chinês" nos aponta uma janela diante dessa constatação da mortalidade de todos nós: deixar a paralisia da dor e tomar coragem para ir de encontro ao outro, para criar laço. Afirmar o sentido pode ser a própria busca de sentido, a busca da troca, de reconhecer o outro, de fazer vínculo. Não posso fazer sua dor sumir, mas posso te acompanhar no enfrentamento dela.
O desamparo, as dores, as perdas, as mudanças também ocorrem para o outro, podemos compartilhar nossas dores, assim como compartilhar boas risadas. Podemos deixar o drama da lamentação e assumir nossa condição trágica de ser humano, acolhendo a leveza de rir de nós mesmos. Como diz a frase: "Não leve a vida tão a sério. Você não vai sair vivo dela mesmo."
Que a constatação do irremediável da morte nos dê coragem pra vida, que a mudança do fim seja o início do novo. Que possamos suportar o fim para começar, de novo, a gigantesca novidade da vida. E que quando o fim chegar, possamos ter sentido vida no tempo vivido e não morte em vida, que é a pior das mortes. Viver enquanto há vida, abraçar a vida mesmo quando ela nos machuca com seus espinhos.
"Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado." (Clarice Lispector)
"Justo quando a lagarta pensou que o mundo tinha acabado, ela virou uma linda borboleta" (Lamartine)
Mas esse temor e essa especulação do fim do mundo parece que há muito tempo tem estado presente no imaginário da humanidade. Por que será essa preocupação toda com um fim coletivo da humanidade?
Há um tempo atrás ouvi de dois professores de filosofia: "essa histeria pelo fim do mundo tem relação com um grande temor do ser humano - morrer sozinho". Será que esse tema do fim do mundo atrai tantas multidões porque seria uma forma diferente de fim - um fim coletivo e não individual?
O absurdo do fim. É, um belo dia, a gente descobre que nós também teremos um fim, assim como terão aqueles que amamos. Corremos todos o risco de desaparecer, de cair no esquecimento, de voltar ao pó do qual viemos.
E talvez esse seja a fonte de angústia maior: o fim solitário. Cada um morre sozinho, de forma peculiar. Mas a morte vem para todos: branco, negro, amarelo, rico, pobre, doente, saudável, famoso, anônimo. Por mais que ela venha de forma particular, todos um dia a experimentarão, ou deixarão de experimentar a vida. De repente, o último suspiro. O fim.
Pesquisadores estudiosos do povo antigo maia afirmam que eles não falavam em fim do mundo, mas acreditavam em ciclos, em declínios e recomeços. Para o povo maia, apenas o calendário terminava em 21 de dezembro deste ano, mas outro viria, numa nova contagem cronológica.
Afinal, o fim pode dar abertura pro começo. O fim de um ciclo. Aceitar a finitude pode nos dar coragem para nos lançar mais na vida, para buscar o sentido para nossa existência. Como no excelente filme: "O conto chinês", há formas diferentes de lidar com o fim: paralisar na dor ou sair em busca de sentido.
O filme "Melancolia" mostra "o tombo antes da queda"; diante da possibilidade do fim, a queda numa vida sem sentido, imersa na depressão. Já "O conto chinês" nos aponta uma janela diante dessa constatação da mortalidade de todos nós: deixar a paralisia da dor e tomar coragem para ir de encontro ao outro, para criar laço. Afirmar o sentido pode ser a própria busca de sentido, a busca da troca, de reconhecer o outro, de fazer vínculo. Não posso fazer sua dor sumir, mas posso te acompanhar no enfrentamento dela.
O desamparo, as dores, as perdas, as mudanças também ocorrem para o outro, podemos compartilhar nossas dores, assim como compartilhar boas risadas. Podemos deixar o drama da lamentação e assumir nossa condição trágica de ser humano, acolhendo a leveza de rir de nós mesmos. Como diz a frase: "Não leve a vida tão a sério. Você não vai sair vivo dela mesmo."
Que a constatação do irremediável da morte nos dê coragem pra vida, que a mudança do fim seja o início do novo. Que possamos suportar o fim para começar, de novo, a gigantesca novidade da vida. E que quando o fim chegar, possamos ter sentido vida no tempo vivido e não morte em vida, que é a pior das mortes. Viver enquanto há vida, abraçar a vida mesmo quando ela nos machuca com seus espinhos.
"Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado." (Clarice Lispector)
"Justo quando a lagarta pensou que o mundo tinha acabado, ela virou uma linda borboleta" (Lamartine)
sábado, 8 de dezembro de 2012
A Lei do Pêndulo
Quanto maior a escuridão, maior a luz que vem em seguida.
Podemos refletir: quais foram os momentos em que nos sentimos mais felizes? Será que não foram aqueles que se seguiram a grandes dificuldades vivenciadas?
A felicidade não é constante para o ser humano, não está presente o tempo todo, o que há na vida são momentos, ora momentos de tristeza, ora de alegria. E para poder vivenciar momentos felizes, precisamos saber o que são momentos tristes.
Viemos nessa bipolaridade: noite/dia, luz/escuridão, inquietação/paz, alegria/ tristeza. Um não existiria sem seu oposto, a presença do oposto realça o significado do vivenciado.
A vida muda, segue a lei do pêndulo: ora estamos lá em cima, ora lá embaixo. Ora estamos em dificuldades, ora em júbilo. Pode ser clichê, mas é como diz o ditado: "A vida dá voltas". Será que algum dia conseguiremos não nos identificamos com um momento específico da vida (seja com a euforia, ou com o desânimo, por exemplo), e alcançarmos uma serenidade que nos aquiete?
Podemos refletir: quais foram os momentos em que nos sentimos mais felizes? Será que não foram aqueles que se seguiram a grandes dificuldades vivenciadas?
A felicidade não é constante para o ser humano, não está presente o tempo todo, o que há na vida são momentos, ora momentos de tristeza, ora de alegria. E para poder vivenciar momentos felizes, precisamos saber o que são momentos tristes.
Viemos nessa bipolaridade: noite/dia, luz/escuridão, inquietação/paz, alegria/ tristeza. Um não existiria sem seu oposto, a presença do oposto realça o significado do vivenciado.
A vida muda, segue a lei do pêndulo: ora estamos lá em cima, ora lá embaixo. Ora estamos em dificuldades, ora em júbilo. Pode ser clichê, mas é como diz o ditado: "A vida dá voltas". Será que algum dia conseguiremos não nos identificamos com um momento específico da vida (seja com a euforia, ou com o desânimo, por exemplo), e alcançarmos uma serenidade que nos aquiete?
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Mudando pequenos pedaços
Tem hora que as coisas estão bagunçadas... e temos que dar uma arrumada nos papéis, livros, lembranças. Mudar pequenos pedaços de objetos que gritam por todos os lados a pessoa que já fomos, que tentamos ser ou que éramos diante do sonho do futuro.
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