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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Aprendendo com Mudanças



Não tem jeito: vai chegando o fim de ano e acabamos por fazer uma revisão do ano. Mais que isso, podemos ampliar o olhar e pensar nos últimos anos de nossa vida, ainda mais ao sentir que uma nova etapa está por vir e uma outra se encerra. Vão aqui pensamentos que surgiram após tantas mudanças do últimos anos.


TRABALHO

domingo, 24 de outubro de 2010

Gravidez e Trabalho


Tenho pensado nos fatores que podem ter influenciado no fato de minha gravidez estar sendo tão tranquila. Além de ter planejado, de ter o fundamental e carinhoso apoio diário de meu marido e parceiro de vida, creio que estar trabalhando bastante também tem me auxiliado nessa gestação.

Peraí! Trabalho e gravidez? Mas isso combina? Nossa sociedade muitas vezes propala que vida profissional fica de um lado e vida familiar/materna/pessoal de outro.

Eu tenho o privilégio de ter uma profissão - de psicóloga - que me acrescenta muito em minha vida pessoal, pois aprendo ao ser testemunha de tantas histórias, ao perceber forças e fragilidades que habitam um ser humano. ("Quem testemunha o faz por sua conta e risco, sem outra garantia senão a própria fala" - Romildo do Rêgo Barros.)

Vejo a dureza que é enfrentar diferentes etapas da vida: ida à faculdade, saída da casa dos pais; casamento; criação dos filhos; dificuldades na relação com o cônjuge e com familiares da família de origem; filhos crescendo e indo embora, estudar; problemas com relações no trabalho; filhos se casando, solidão que vem com a casa vazia de filhos, relação com o cônjuge nessa nova etapa; solidão com a viuvez; tristeza com as vulnerabilidades impostas pela velhice; sofrimento com perdas de pessoas queridas...

Enfim, uma infinidade de histórias de pessoas de diferentes faixas etárias que têm em comum o fato de ter que passar por mudanças e dar uma resposta a elas. Tanta beleza e tristeza em cada enredo de alguém que luta para existir nesse mundo tão repleto de desafios. A descoberta, não sem dor, de que não estamos tão no controle de nossas vidas, que há o imprevisível que pode vir a qualquer hora e mudar o rumo de nossas vidas, nos fazendo enfrentar situações inesperadas, ter que passar por mudanças. Mas a vida não é isso?

Creio que tudo isso tem me trazido uma tremenda bagagem de crescimento pessoal. Isso que sempre sonhei: entender o ser humano. Tanto que percebi a limitação da linha teória que escolhi - a Psicanálise, e tenho buscado a leitura de outras visões de mundo, por meio de filósofos antigos, filosofias orientais, até a linha fenomenológica-existencial que também tem muita base filosófica. Visões que me ajudem na compreensão do ser humano.

Ter tido contato com livros de sabedoria oriental (além de estar casada com um oriental), ter feito sessões de acupuntura e estar fazendo yoga (para gestantes) também me ensinam na busca de estar mais integrada a meu corpo, que como tantos outros corpos de pessoas que vivem por aqui, no Ocidente, são reflexo dessa nossa cultura ocidental que proriza a razão, o pensamento, e menospreza os sentidos como algo inferior, com isso nos alienando de uma parte importante do que somos também: nosso corpo. Corpo que apresenta sintomas que expressam sua subjetividade, como tanto tenho visto no meu trabalho num ambulatório de saúde.

E a gravidez nisso tudo? Para além de uma experiência de pensamento, é sobretudo uma experiência de corpo, de experimentação de novas sensações corporais que vão se manifestando. Uma vivência muito nova, muito particular, que se inscreve numa teia de relações que vão influenciar esse período tão especial na vida de toda mulher. E o ambiente de trabalho se insere nessa rede de relações.

Estar na ativa, trabalhando, me faz sentir agente no mundo, acompanhando as mudanças nas pessoas que atendo, e me proporciona muita satisfação e realização. Acho que desde já mostro a meu filho que tenho outros importantes investimentos em minha vida, que creio ser uma sinal de saúde, para mim e para ele (na psicologia estudamos o quanto uma mãe que faz do seu filho "o seu tudo" pode ser prejudicial, o que já vi muito na prática profissional também...)

É claro que após o nascimento, as coisas não continuarão iguais, será uma outra etapa de minha vida afetiva, familiar e porque não dizer profissional. Mas por enquanto, o trabalho tem me vivificado, ver os colegas de trabalho se preocupando comigo e me perguntado do bebê. Obviamente, às vezes me sinto cansada, com vontade de largar tudo, de não ter que acordar tão cedo, de não ter que chegar tão tarde em casa, de ter mais tempo para me dedicar às coisas que tenho que resolver para preparar o espaço para essa nova vida. Mas sempre conseguimos um tempo, de alguma forma, e ansiamos com todo o amor do mundo que essa nova vida chegue com saúde. E que a vida profissional também siga o seu rumo.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Importância da Despedida


No começo do novo trabalho ao qual me aventurei neste ano, fiquei mais próxima de uma colega de trabalho. Chegávamos juntas ao trabalho, e iamos embora também. Compartilhamos descobertas, conquistas e dificuldades do início da vida profissional, ansiedade e expectativa com o novo emprego. Aos poucos, fomos nos adaptando à nova mudança.

E chegou a hora de minha amiga partir, agora para outro emprego. E essa mudança não foi só para ela, mas para mim que não teria mais sua companhia diária, seu sorriso doce e acolhedor.

E fiquei um pouco triste inicialmente. Lembrei de outro emprego que tive, em que logo que comecei, fiz duas amigas, e no mês seguinte elas também partiram para outros rumos. No ano passado, também fiquei triste ao saber que uma amiga tinha saído do emprego que eu também trabalhava. Contudo, todas partiram para coisas melhores, e isso também me deixa feliz por vê-las em busca de mudanças melhores, e até me inspira para essa luta também.

Em situações novas, gostamos de ter outras pessoas por perto, nos sentimos mais seguras ao poder falar da nossa mudança já que o outro também está enfrentando algo parecido. Muitas vezes nos sentimos até mais fortalecidos por ter com quem compartilhar. Podemos pensar que é muito reconfortante poder compartilhar mudanças, perceber que elas são difícies para outras pessoas também, e que aos poucos vamos entrando no ritmo das mudanças que se apresentam às nossas vidas. Mudanças nos fazem conhecer novas pessoas, ver outras formas de conviver, de relacionar-se, nos propiciam crescimento emocional.

E eu sabia que essa mudança era diferente das anteriores. O momento é outro, as pessoas são outras, o lugar é outro, e eu também mudei.

E então, não me paralisei na tristeza, mas pensei em fazer algo para mostrar para essa amiga o quanto ela tinha sido importante. Desse vez, eu teria tempo de me despedir, um presente que a vida me deu, já que das outras vezes, fiquei sabendo depois que minhas amigas partiram. Conversei com outros colegas de trabalho, e escrevemos mensagens na cartolina para ela, e a cartolina foi entregue junto com um belo vasinho de flores.

E como eu senti que mudou o sentimento dentro de mim. A tristeza foi embora, senti um alívio e percebi que não tinha que chorar pelo fato dela ir embora, mas sorrir pelo fato de tê-la conhecido, de termos passado bons momentos juntas.

Percebi também a importância da gente poder dizer "até logo", "boa sorte", e de olhar de outra forma para perda, já que talvez nem podemos chamar de uma perda, apenas de mudança. O que se recebeu do outro não se perde, levamos conosco, dentro de nosso coração. Assim como o que doamos, não perdemos. Afinal, como já era dito no livro do Pequeno Príncipe, somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. E nossos contatos aumentam, e sempre teremos a possibilidade de nos comunicar, telefone, e-mail, visitas, etc.

E o período de adaptação está se consolidando. E há outras pessoas ao redor com quem podemos compartilhar e novas pessoas chegando também. Esse é o trem da vida, onde há as partidas, assim como as chegadas.

CANÇÃO DA AMÉRICA
(Fernando Brant e Milton Nascimento)

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

sábado, 17 de abril de 2010

O Cuidador e o Cuidar-se


"E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê Flor
flor e fruto
" (Wagner Tiso/Milton Nascimento)


Após a formatura, a psicóloga fica seis meses à procura de trabalho. Seis meses que se tornam longos e intermináveis. Que vontade de exercer logo a profissão após tanto estudo e vontade!

E planos mudam, novas cidades se apresentam, novas buscas e desafios, e chega a hora tão sonhada: o primeiro emprego fixo como psicóloga, após passar num concurso público.
Muitas demandas, diferentes possibilidades de atuação, o mergulho na atuação profissional traz mundos inesperados e descobertas indizíveis, dificuldades e delícias, um mundo imenso de prática, para além do mundo das idéias da faculdade. Incompletude do saber e um contínuo desejo de saber mais! E de mudar!

Eu tinha pensando em fazer filosofia no segundo grau (e a leitura de filosofia no atual momento de minha vida vem com um novo significado e tem me aberto mais ainda novas portas de compreensão do humano!), mas quis fazer psicologia porque sabia que essa profissão me possibilitaria dar de cara com a prática da vida, pois eu precisava ir além das idéias. E dei de cara com a vida com muita intensidade! A gente encontra o que procura, não tem jeito, e a luta é dura para dar conta daquilo que a gente escolheu.

E após dois anos e meio no mesmo trabalho (onde pude mudar de setores e experenciar diferentes possibilidades de atuação - como parece pouco dizer apenas 2 anos e meio diante de todo o vivido!) senti que era hora de mudar, por alguns motivos.

E foi hora de dar adeus aquele emprego que tanto me tinha sustentado (psiquicamente) e tanto me fez crescer, e tanto me fez estar ciente dos meus limites quanto psicóloga e quanto pessoa. O quanto questões sociais atravessam nosso trabalho, questões coletivas, trabalhistas, comunitárias, culturais, o quanto precisamos de outros profissionais para compartilhar dificuldades, conquistas, trocar idéias, buscar novos caminhos e alternativas para nossos impasses profissionais, criar novas estratégias de atuação, realizar projetos, inovar. O quanto foi importante descobrir a importãncia de trabalhar em rede, de se surpreender com as novas possibilidades que nos trazem novas sensações e novos leques de atuação. E o quanto o mundo pós-faculdade é MUITO MAIOR do que podíamos imaginar!

E ao fazer o exame admissional para o novo emprego, descubro que minha pressão está alta. O médico sugere que eu procure um bom clínico geral.

Ato I
Na primeira consulta, acordo triste. Teve um espaço de tempo entre o antigo emprego e o novo que iria vir, e não deixei de ficar ansiosa.
O clínico que também é cardiologista, me recebe com expressão séria, mede a pressão e avalia o quadro.
Ao ver a sala de espera dele lotada imagino o quanto deve ser difícil ser um médico com tamanha responsabilidade com o compromisso com a vida de tantas pessoas. Posso entendê-lo melhor por eu já ter atendido tanta gente num dia só (bem cansativo!), e ser uma profissional da saúde numa profissão que também lida com o desgaste emocional que faz parte do pacote do tipo de trabalho que escolhemos.

Nesse meio tempo entre uma consulta e outra, vi aquela série "Dr. House" e fiquei pensando nesse curioso drama de ser um profissional que cuida do outro e ao mesmo tempo precisa de cuidados por também ser humano, tendo todas as complexidades, e fragilidades, que um ser humano tem. É uma série muito interessante, em que o personagem central é um médico brilhante que consegue, com o apoio de uma equipe, descubrir diagnósticos de casos difíceis (quase como se fosse uma investigação policial). O médico da série tem uma expressão facial séria(sem deixar de ter seu carisma) e é viciado em analgésicos, após ter sofrido um acidente e ter tido problemas numa das pernas.

Ato II
Segunda consulta. Na sala de espera, a recepcionista ainda não chegou e o médico chega e pede para nós (os pacientes marcados)esperarmos ela. Um casal de idosos chega sorridente e pela conversa com outro paciente, descobrimos que o casal são pais do médico. A recepcionista chega, anuncia o casal que entra na sala e fica pouco tempo.
Eu fui uma das primeiras atendidas (diferentemente da primeira consulta, de acordo com as marcações respectivas), e desde o começo o médico mostra-se mais simpático.
Pergunta se eu estou trabalhando mais perto (mais uma vez, vou trabalhar em outra cidade - ele lembra dessa informação), digo que não agora que comecei lá. O médico diz que dessa vez meu rosto estava iluminado - ele percebeu que a volta ao trabalho - dessa vez um novo - me fez muito bem. Espero ter menos estresse, menos pressão, quem sabe isso me ajude a controlar essa pressão que às vezes fica alta? O médico se abre. Diz que trabalhou 12 anos (ou 15, ou mais - não me lembro bem) numa emergência, viu de tudo, e teve um período, há cerca de poucos anos trás, que começou a ter pesadelos, acordar com palpitação, suores, estava insuportável, segundo suas palavras. Diz que começou a tomar antidepressivos e isso o ajudou.

Senti que essa situação foi um ENCONTRO, mais que entre dois profissionais, um encontro entre duas pessoas, que por mais perfeccionistas que possam ser, se deparam com seus limites e sofrem com o desgate trabalhista do dia-a-dia. Falei um pouco sobre o meu sofrer com o meu trabalho através do meu corpo, e ele expõs sua fragilidade com suas palavras. Ora, admitir que não somos onipotentes nem salvadores, além de realista, já é uma forma de cuidado com a gente mesmo. Que alívio saber que somos falíveis - e não apenas nós, nós e outros, e podemos nos comunicar sobre isso, construir uma ponte. Lidar com o humano nos torna mais humanos e conscientes de nossa limitação.

Afinal, nós que temos o compromisso de cuidar, também precisamos de cuidados. Também sofremos às vezes (e de alguma forma) com o sofrimento das pessoas que cuidamos. E precisamos de válvulas de escape para isso, de modos de aliviar nosso sofrer também por estar tão em contato com a fragilidade e limitação do humano. Atividade artística, atividade física, meditação, leitura, podem ser formas de nos aliviar um pouco dessa carga.

Lembrei-me agora da mitologia de Quíron, que Jung diz que é o arquétipo do curador. Quíron é um personagem da mitoglogia grega que passou por muitos sofrimentos e, mesmo tendo se tornado mestre nas artes curativas, jamais conseguiu tratar de sua própria ferida. Por isso, era conhecido como o Curador Ferido. Outro dia volto a falar mais desse personagem tão interessante.

Cuidamos dos outros, e às vezes nos esquecemos de nós. Mas em algum momento, algo em nós se expressa e sinaliza que precisamos de cuidados. Somos humanos, e um dia vamos adoecer de alguma forma, e a morte vai nos levar, como leva a todos, inclusive a pessoas queridas a nós. A finitude é uma das situações que une toda a humanidade.

Que até lá, tenhamos, além de ter cuidado do outro, cuidado de nós mesmos, e ter tido uma boa qualidade de vida.

"Quiron traz em si a ferida e a cura, pois à medida em que vivenciamos nosso sofrimento e desamparo, tornamo-nos mais inteiros e curados, porque mais sábios e mais humildes."

sábado, 6 de março de 2010

Amor Sem Escalas: Retrato da Nossa Época

Assisti ao filme "Amor sem escalas" e quis falar sobre alguns aspectos que me chamaram atenção nele. Primeiramente, eu recomendo, pois, apesar do título que dá a impressão de ser um mero romance, passa muito longe disso. Talvez seja um romance da vida real, da nossa era atual da pós-modernidade, marcada por acentuado individualismo, pela fragilidade e inconstância de laços afetivos. Momento propício para a presença de pessoas que se escondem do risco que é se relacionar com o outro.

A história tem como personagem principal - representado pelo ator super charmoso (e solteirão convicto, coincidentemente) George Cloney - um homem que vive viajando a trabalho para uma empresa cujo objetivo é demitir funcionários de empresas em que os chefes não têm coragem para tanto.

Só a partir disso, podemos refletir um pouco sobre como andam as relações trabalhistas na atualidade. Em outros tempos, em geral as pessoas trabalhavam na mesma empresa a vida toda, podendo seguir carreira e crescer profissionalmente. Agora podemos ver o quanto isso mudou, e as próprias políticas de recursos humanos consideram o funcionário que trabalha na mesma empresa há muito tempo como obsoleto.